PROCURANDO RESPOSTAS


Quando comecei a pensar pela primeira vez sobre o significado da vida e para quê estou aqui, tentei achar respostas em vários lugares. O primeiro deles, acredito que o mais natural de ir atrás quando se está procurando esse tipo de sentido, foi na religião. Resumidamente, o que eu entendi sobre religião é que, se seguirmos certas diretrizes, estaremos cumprindo um propósito que ao final da nossa vida nos trará uma recompensa (no caso de seguir as tais diretrizes) ou muito sofrimento (se não as seguirmos corretamente). 

Entendo o porquê disso fazer sentido para muitas pessoas, pois ter fé no futuro é algo que nos dá forças para continuar, e temer as consequências de nossos atos também refreiam os impulsos que podem ser prejudiciais para a vida em sociedade. Apesar de trazer certo conforto e fornecer um norte, eu ainda não estava satisfeita com essa definição.

Na verdade, acredito que essa constante insatisfação com algo seja característica de minha natureza. Isso é bom, pois me traz a capacidade de me adaptar facilmente à mudanças e abraçá-las, pois sempre que eu descobrir que há algo além para aprender do que penso que sei, meus olhos vão brilhar com uma nova descoberta, refinando e atualizando minhas definições sobre alguma coisa. O lado ruim disso é que jamais estarei satisfeita, sempre buscando mais e mais, sem nunca ter certeza se o que eu já conheço sobre aquilo é o suficiente ou se há algo mais que estou perdendo ao me acomodar no que já me é familiar.

Começo a pensar em como somos introduzidos à esse mundo e sinto um aperto enorme no peito. Quando vamos à escola, temos acesso ao conhecimento, aprendemos a fazer contas, ler, escrever, e mais outros conceitos que, em minha opinião, são completamente dispensáveis, mas fazem parte de nossa grade curricular. 

Só que ninguém nos ensina a entender nossas emoções e como expressá-las. 

Nossos pais, geralmente, estão ocupados em garantir nossa sobrevivência (moradia, alimentação, educação) e, no intervalo desses deveres, às vezes nos oferecem afeto ou repreendem, impondo os limites que serão necessários para que aprendamos a viver na sociedade atual em que acabamos de ser inseridos. Não dá pra culpar nossos pais por tudo. Eles também foram crianças e jovens criados dessa forma: a sobrevivência e a necessidade de se situar e adaptar às exigências do mundo, fazendo o melhor que puderem até que a velhice chegue. 

E o que é essa vida em sociedade à qual estamos sujeitos? Para a maioria das pessoas, pelo menos aqui no Brasil, precisamos estudar, cursar uma boa faculdade, arrumar um emprego que nos remunere satisfatoriamente (de preferência passando em concurso público para termos mais "estabilidade"), encontrarmos um(a) parceiro(a) ideal, e quem sabe, ter um ou dois filhos, criá-los e aguardar a aposentadoria chegar.

Estamos, inconscientemente, reproduzindo esse mesmo padrão. 

Precisamos sobreviver. Estamos endividados, com nosso tempo e dinheiro cada vez mais comprometidos. Deixamos de ver nossos amigos porque precisamos estudar para passar no vestibular/concurso. Trabalhamos até tarde ou em horários malucos para ganhar mais e suprir os gastos, cada vez mais altos, de viver com conforto no modelo de sociedade atual. Temos uma liberdade ilusória. Fazemos o simples, nos esquecemos do primordial. Nossas emoções, reflexões e o modo de enxergar o mundo são negligenciadas, controladas ou mesmo reprimidas.

Estamos tão ocupados com a logística da coisa, que nem percebemos o quanto estamos negligenciando nossos próprios sentimentos. Somos analfabetos emocionais. Quando nos vemos diante de uma situação que nos desperta indignação, raiva, medo, culpa, não sabemos o que fazer ou como administrar aquilo. No meu caso, tendo a ser explosiva ou extremamente sensível, e algo que poderia ser tratado com naturalidade se transforma em um verdadeiro drama, apenas porque não reconheço o que e porquê estou sentindo aquilo, além de não ter a mínima ideia de como agir.

Às vezes, temos pessoas com quem conseguimos partilhar e entender um pouco de nossas emoções, mesmo que seja pagando um terapeuta. Mas a realidade é que há pouquíssimo tempo e espaço para encontrar respostas sobre o que realmente nos faz feliz, qual o nosso dom e como podemos contribuir para o mundo com ele. Não sabemos se somos corajosos, fracos, independentes, desmotivados, passionais, sensíveis, até que uma situação de vida nos obriga a saber disso, às vezes de maneiras bem dolorosas. Pouco ou quase nada é falado sobre a importância de se auto-conhecer. Analisar que a pessoa que somos hoje é resultado de como as experiências anteriores nos moldaram. 

Procuramos desesperadamente companhia, relacionamentos, alguém para dividir essa angústia e para nos fazer sentir especiais, amados. Colocamos no outro uma responsabilidade que só deveria ser nossa. Queremos ser supridos, mas não sabemos como nos auto-suprir. Por outro lado, quando reconhecemos tudo isso, podemos sentir culpa e querer fugir. Achamos que é impossível estar com alguém sem ter ideia de quem somos. Quer dizer, como construir uma vida com alguém sendo que eu nem sei ainda como construir a minha? Como posso amar verdadeiramente o outro se não aprendi como me amar?

Conhecer a si próprio, entender seus desejos e necessidades e o que te deixa feliz, animado, frustrado, impaciente, com raiva, é fundamental e deveria nos ser ensinado desde muito cedo. Isso é de extrema importância, e só assim estaremos criando a vida que desejamos. Te desafio a pensar nos acontecimentos recentes de sua vida e criar uma lista de 10 itens: 5 situações que te deixaram muito triste e 5 que te deixaram mega feliz. Podem ser coisas simples, ou sérias. Atitudes de outras pessoas que te enfureceram, um filme que te fez rir. Uma mensagem não respondida. Um momento em que você parou para olhar o céu e viu o sol se pondo e sentiu gratidão mesmo após o dia difícil. Ou como ficou feliz ao comprar algo que estava precisando muito ou pagou aquela conta atrasada. 

Particularmente, acho esse exercício muito eficaz, pois ajuda a identificar quais são as minhas reações para cada acontecimento, e quando algo semelhante acontecer de novo, já terei uma ideia de como vou me sentir e como lidar com aquilo. É algo simples, mas acredito que seja um bom começo a fim de responder os questionamentos com os quais abri esse texto. Afinal, como saber o porquê de estar aqui se nem souber verdadeiramente quem sou?

Autoconhecimento é a chave.

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